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Tecidos antigos com tintura púrpura da Bíblia são encontrados em Israel

Pesquisadores israelenses encontraram três restos de tecidos perto do extremo sul de Israel, tingidos com o corante púrpura da realeza, chamado “argaman” (em Hebraico אַרְגָּמָן), descritos na Bíblia, datados de cerca de 1.000 a.C – a Era do Rei Davi.

Fragmento do raro tecido púrpura de 1.000 a.C., escavado no vale de Timna
Foto por Dafna Gazit, da Autoridade de Antiguidades de Israel.

Sendo os mais antigos achados nesta região, os tecidos vibrantes adicionam peso tangível, em particular, ao relato da Bíblia de um reino Edomita na área naquela época.

Tingidos com o corante mais precioso do mundo antigo, os restos de tecidos foram escavados no vale de Timna, perto de Eilat, e oferecem uma visão surpreendente de uma classe de elite antiga.

Parque Timna.

Os pequenos fragmentos de tecidos coloridos da Idade do Ferro são a evidência mais antiga deste corante precioso em todo o sul do Oriente e lançam uma nova luz nos primitivos Reinos Edomita e Israelita há 3.000 anos, sendo um período onde a Bíblia detalha a conquista dos Edomitas pelo Rei Davi.

Também chamada de “verdadeira” ou “púrpura de Tiro”, a vibrante, duradoura e milenar cor púrpura é produzida por glândulas corantes colhidas de três espécies de moluscos marinhos vivos chamados Murex, nas margens do Mar Mediterrâneo.

Murex Carbonnieri, espécie encontrada no Mar Vermelho – Foto por H. Zell.

Para chegar às famosas Minas de Cobre do Rei Salomão em Timna, perto da costa do Mar Vermelho, o tecido teria viajado centenas de quilômetros, o que apenas aumentava seu valor e prestígio.

O Professor Erez Ben-Yosef, da Universidade de Tel Aviv, disse que “É um período muito inicial para encontrar a ‘púrpura verdadeira’ em uso e é uma localização muito estranha. É no meio do deserto, onde nós (tradicionalmente) não pensamos que esses materiais de prestígio estivessem em uso.”

Ben-Yosef escavou em Timna desde 2013 e acrescenta também que a descoberta oferece “evidências adicionais para a nossa nova compreensão dos povos nômades naquele período na época do surgimento desses antigos reinos de Israel, Edom, Moabe, Amom, os reinos locais do tempo Bíblico.”

O “verdadeiro púrpura” (argaman) e sua variante associada azul (techelet – criada por meio do processamento de variantes do corante dos moluscos), são mencionadas dezenas de vezes na Bíblia Hebraica e no Cilindro de Senaqueribe, por volta de 690 a.C., entre outros textos. O “verdadeiro púrpura” é associado à realeza e ao sacerdócio, bem como aos tecidos usados no Tabernáculo e no Templo Judaico.

Leia abaixo algumas passagens Bíblicas onde a cor púrpura é mencionada, principalmente como sendo algo da realeza:

Ele fez o véu de tecido azul, roxo, vermelho e linho fino com querubins desenhados nele.

2 Crônicas 3:14

Veja mais um exemplo em Ester 8:15:

“Mardoqueu saiu da presença do rei usando vestes reais em azul e branco, uma grande coroa de ouro e um manto púrpura de linho fino […]”

Também veja o que lemos em Provérbios 31:22 – Ditados do Rei Lemuel (uma exortação que sua mãe lhe fez):

“Faz cobertas para a sua cama; veste-se de linho fino e de púrpura.”

Fragmento do raro tecido púrpura de 1.000 a.C., escavado no vale de Timna
Foto por Dafna Gazit, da Autoridade de Antiguidades de Israel.

O tecido e os próprios moluscos Murex foram submetidos a um estudo aprofundado e prático no novo artigo de pesquisa colaborativa interdisciplinar publicado esta semana pela prestigiosa revista científica PLOS One. A investigação levou os pesquisadores de escavações de campo em Timna aos laboratórios de universidades israelenses – a mercados de peixes em Milão e Palermo, na Sicília.

Até agora, as primeiras evidências têxteis do corante púrpura real datavam de pelo menos 1.000 anos depois, no Período Romano, quando era altamente valorizado.

Ben-Yosef explicou que Timna é antes de mais nada, conhecida por seu cobre, que foi extraído pelos antigos habitantes da Terra de Israel já no Quinto Milênio a.C., indo até o início do Período Islâmico, cerca de 1.400 anos atrás. Ele também diz que, mesmo recentemente, o estado nascente de Israel tinha uma pequena fábrica que produzia cobre lá.

As condições climáticas secas em Timna, nas profundezas do deserto de Aravá, permitem a preservação excepcionalmente boa de materiais orgânicos, semelhante aos achados de couro e têxteis da Era Romana muito posteriores, descobertos nas cavernas da Judéia e em Massada.

Ben-Yosef também diz que, o que é notável em Timna, é que a “grande história” está relacionada ao início da Idade do Ferro. Ele também completa que “Estamos falando do século 11 ao 9 a.C., e é um período muito debatido na história da região”, o período atribuído à ascensão dos Reinos Bíblicos de Judá e Israel.

Dr. Erez Ben-Yosef e Dr. Naama Sukenik examinando os fragmentos de tecidos coloridos recuperados em Timna – Foto por Yolli Schwartz, cortesia da Autoridade de Antiguidades de Israel.

“Ao lado de vestígios de têxteis e outras indicações de condições relativamente luxuosas, o quadro pintado após a continuação das escavações está mudando a visão dos Edomitas nômades”, disse Ben-Yosef. “Nós o vemos como o primeiro Reino Edomita”, ao contrário de um mero acampamento tribal.

Ben-Yosef também diz que com o deserto árido de Timna, eles encontraram coisas que normalmente não são encontradas em escavações regulares, como tecidos, cordas, couro, e coisas que geralmente se deterioram e não são preservadas.

E portanto, eles têm uma janela única para as pessoas da região naquele Período inicial, por meio desses materiais orgânicos incríveis e únicos. Eles possuem dezenas e dezenas de fragmentos de tecidos e cordas, cestaria, enfim, coisas que normalmente você não encontra.

Naama Sukenik, a curadora de descobertas orgânicas da Autoridade de Antiguidades de Israel, disse que todos os anos, o grupo de pesquisa colaborativa faz uma viagem ao local de Timna para acessar – e se maravilhar – com descobertas antigas extremamente raras.

Sítio 34 da escavação no Vale de Timna, anteriormente chamado de “Monte dos Escravos”. As novas descobertas indicam que os metalúrgicos que operavam no local possuíam um status social elevado – Foto de Erez Ben-Yosef, Universidade de Tel Aviv.

As novas descobertas foram localizadas no Monte dos Escravos, discutivelmente, o maior campo de fundição de cobre no Vale, que a equipe escavou nos últimos seis anos. Durante a escavação, os arqueólogos discerniram pequenos pedaços de tecidos de muitos tipos emergindo do solo. Algumas eram derivadas de coberturas ásperas de tendas, outras de sacos, e algumas das peças eram vivamente coloridas.

Naama disse que a equipe observou o púrpura brilhante aparecendo em três dos muitos fragmentos de tecidos escavados naquele ano, e completa dizendo que “Vimos algumas peças em que a tonalidade era muito especial. Nós realmente queríamos que fosse argaman (verdadeiro púrpura), o corante mais caro na antiga indústria têxtil.”

As peças têxteis foram levadas de volta para o laboratório da Universidade Bar Ilan, onde foi confirmado que as moléculas 6-monobromoindigotina e 6,6-dibromoindigotina – exclusivas dos moluscos do mar Murex, que produzem o verdadeiro corante púrpura – foram descobertas nos restos de tecido após Altas Análises de Cromatografia Líquida de Pressão (HPLC), que é usado para identificar corantes orgânicos.

De acordo com o artigo, “Identificar as tinturas de corantes orgânicos em têxteis arqueológicos é uma tarefa complexa devido à baixa concentração das moléculas nas fibras e à quantidade limitada de material disponível para análises destrutivas.”

Ao saber que a tinta era de fato o verdadeiro púrpura antigo, Naama disse que isso a deixou muito feliz e que um tesouro de antigas conchas de moluscos Murex Trunculus foi recentemente escavado no local de Tel Shikmona, no norte de Israel, datando dos séculos 10 a 7 a.C.

Murex Trunculus – Foto por Holger Krisp.

Por ser material orgânico, uma das peças de tecido de Timna também foi enviada para teste de radiocarbono 14 em um laboratório em Oxford, onde a data de 1.000 a.C. foi calculada.

Durante o início da Idade do Ferro, “já sabíamos que havia uma verdadeira indústria de corantes têxteis púrpura”, disse ela, mas até agora, não haviam tecidos tingidos. De acordo com o artigo, a primeira evidência arqueológica do uso do corante data do século 19 a.C., na forma de conchas de Murex.

“Estou tão feliz que Erez [Ben-Yosef] nos deu a oportunidade de espiar dentro do armário de roupas da época de Davi e Salomão e ver o guarda-roupa da elite que viveu no período nas minas de cobre”, disse ela, e ainda completou que:

“Suponho que se olhássemos para o armário de Davi e Salomão, veríamos roupas semelhantes – e talvez ainda mais púrpura.”

Descobrir que as sobras têxteis de 3.000 anos foram tingidas com púrpura real, foi apenas uma etapa da jornada empreendida por este ambicioso projeto de pesquisa. Outro capítulo não registrado no artigo do PLOS One viu o Prof. Zohar Amar, da Universidade de Bar Ilan, visitar os mercados de peixes da Itália para conduzir experimentos com as três espécies de moluscos.

O Prof. Zohar não conseguiu obter amostras suficientes dos moluscos para realmente conduzir seus experimentos, porque as três espécies dos moluscos estão ameaçadas de extinção em Israel, então ele foi para Milão, que possui o maior mercado de peixes da Europa. Lá, os moluscos são consumidos como parte da variada dieta italiana e duas das espécies – Spiny Dye-Murex (Murex Brandaris) e Banded Dye-Murex (Murex Trunculus) – são abundantemente comercializadas no mercado.

Zohar alugou um laboratório e contratou funcionários locais para conduzir centenas de experimentos em milhares de moluscos. Cada glândula corante do molusco, contém apenas uma quantidade minúscula – cerca de um grama. Então, ele encomendou um grande suprimento, que chegava em geladeiras especiais e mantinham os moluscos frescos e vivos.

Prof. Zohar Amar, da Universidade de Bar Ilan, reproduzindo o processo de tintura – Foto por Zohar Amar.

Mesmo em textos antigos, como os escritos do autor romano Plínio, o Velho e o Talmude Judaico, enfatizava-se que as glândulas de moluscos eram obtidas frescas, o que fazia a melhor tintura. Zohar disse que, tendo usado glândulas secas que foram enviadas para Israel em alguns experimentos, agora ele pode atestar o valor de espécimes frescos.

As glândulas eram tradicionalmente secas ao sol, mas Zohar importou um forno de Israel para acelerar o processo. E completa dizendo que foi como trabalhar em um mercado de peixe fresco, “foi um trabalho muito difícil, muito fedido”.

Os pescadores italianos que entregaram os moluscos “acharam que eu era meio maluco. O que eles comiam, eu jogava fora, e o que eles jogavam fora, eu usava”, Zohar riu.

Dois mil anos atrás, os rabinos discutiram como criaturas impuras, como os moluscos do mar – proibidos em uma dieta judaica praticante – podiam ser a fonte de uma tinta usada em espaços sagrados como o Tabernáculo e o Templo.

“De todas as criaturas que vivem nas águas do mar e dos rios, vocês poderão comer todas as que possuem barbatanas e escamas. Mas todas as criaturas que vivem nos mares ou nos rios, que não possuem barbatanas e escamas, quer dentre todas as pequenas criaturas que povoam as águas quer dentre todos os outros animais das águas, serão proibidas para vocês.”

Levítico 11:9-10

Zohar respondeu que, por meio de sua experimentação com os moluscos, ele percebeu que nada restou da carne deles. Por meio do processamento químico das glândulas do molusco em corante, “o material se transforma em outra coisa”.

Espécies de Murex encontradas nas Costas Israelenses (da direita para a esquerda): Spiny Dye-Murex (Murex brandaris); Banded Dye-Murex (Murex trunculus) e Red-Mouthed Rock-shell (Murex haemastoma) – Foto por Shachar Cohen, cortesia de Zohar Amar.

Enquanto duas das espécies eram abundantes, a terceira espécie fez o Prof. Zohar “sacar uma arma” – sua sogra italiana. Com sua ajuda, a terceira espécie, Red-Mouthed Rock-shell (Murex Haemastoma), foi obtida em Palermo, na Sicília. Ele viajou para a maior ilha do Mediterrâneo, apenas para ficar desapontado quando o clima rigoroso fez com que o pescador voltasse sem pescas. Só depois de uma viagem seguinte, ele poderia colher com sucesso as glândulas corantes do terceiro molusco.

Embora Zohar tenha estudado a teoria por trás da preparação do verdadeiro púrpura e corantes azuis associados, “ao conduzir o trabalho prático, aprendi muito sobre as fontes históricas. Era como um túnel do tempo para o passado”, disse ele.

Ele conduziu seus experimentos iniciais sem nenhuma proteção nas mãos, apenas para descobrir que o corante que dura milênios em artefatos arqueológicos, rapidamente manchou suas mãos de azul por semanas. Ele disse que isso deu uma ideia de uma passagem da Guemará (parte do Talmude que contém os comentários e análises rabínicas da Mishná), que sempre o deixou perplexo: a Guemará relata que quando os sacerdotes vão à frente da congregação para dar a bênção sacerdotal tradicional, eles não podem ter as mãos descoloridas. E se o fizerem, só é permitido que dêem a bênção se toda a congregação estiver igualmente tingida. E depois de andar por aí com as mãos azuis por algumas semanas, ele entendeu como as pessoas achavam isso perturbador. Rindo, ele completa que “quando eu voltei pra casa no avião, eu tive que esconder minhas mãos”.

Me digam nos comentários o que você achou dessa descoberta incrível e como você imagina que eram as roupas do Rei Davi e do Rei Salomão.

Matéria traduzida de “Ancient cloth with Bible’s purple dye found in Israel, dated to King David’s era”, por The Times of Israel (Data: 03/02/2021)

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